sexta-feira, 14 de agosto de 2009
XXV - Ser invisível
ao tato e ao paladar do outro. E não por vontade própria (a lápide de Keats).
Dossel de criaturas insonoras. Dão as mãos entre escadarias brancas e curvam os pescoços.
Nossos calcanhares de ectoplasma estralam tanto! Mas correnteza encobre tudo, carregando as mortalhas sem endereço, cheias de soluções e rotina.
Nós, nós não somos surdos.
O marulho inconsútil:
pedras pedras
pedras pedras
pedras pedras
As gargantas ateiam fogo e brasa.
Ó! aquele cuja pele foi tornada oceano (no bori tari taya tathagyata)
Tentei pisar-lhe os pés. Havia uma poça clara, afundou-me até o pescoço.
Cá estão, sob o nevoeiro... o braço de Aquiles, o ventre de Medéia, as praias de Bizâncio...
São cristais os ossos. Um pátio de sono abaixo, dia a dia.
sábado, 8 de agosto de 2009
VIII
- A namorada da Maria gosta
de Lacan
- Amiina são as minas que tocam cordas
no Sigur-Rós
Os versos foram cortados errados. Tendo em vista que a idéia geral é simplesmente apresentar a sonoridade da fala, a métrica espontânea da linguagem falada, os versos deveriam estar dispostos assim:
- A namorada da Maria gosta de Lacan
- Amiina são as minas que tocam cordas no Sigur-Rós
terça-feira, 21 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
XXVII
- Quem você é?
Ao que ele respondeu dizendo seu primeiro nome.
No décimo oitavo dokusan o sensei perguntou:
- O que você tem pra mostrar agora?
Ele mostrou uma bola de meia.
O sensei lhe deu porrada com um pedaço de madeira.
Num outro sesshin, num mosteiro sem luz elétrica, no escuro com uma laparina, outro sensei lhe perguntou:
- Quem é você que tá aí?
Ao que ele repondeu dizendo seu primeiro nome.
De manhã o sino de aviso para o primeiro zazen se quebrou, nas mãos de alguém querendo acordar todos, 30 minutos antes do horário previsto.
Dizem que quando um praticante mediano aparece, o mestre o recebe e mostra a vassoura e a sala de meditação. Quando um bom praticante aparece o mestre faz questão de fechar todos os portões do templo e tirar o dia todo para dormir.
*encontro formal com o professor da prática, dizem que o mestre aqui representa toda a linhagem até o Buda.
terça-feira, 23 de junho de 2009
XXIX - Eu-poeta
o rei menos o reino
aquele que tudo toca
já sendo
preso nele mesmo
coberto de tal mantra de poemas
zzzzu(unindo)
o o
0
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
eco
quinta-feira, 18 de junho de 2009
XXX
Solário
O peso d´águ
a
cabando com o tempo e
o corpo deitado
flutua no diáfano.
- Eu estou indo agora (a dez mil pés de civilidade).
- Vocêu? (cada
pétala
pesa tonelada)
- Como?
Troncos de palmeira
e pernas depiladas,
pássaros e as adolescentes
dobrando gazes nas coxas.
- Você não deveria estar aqui, deveria estar mascando Lucacks no alto de um Shopping Center.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Porrada...
Abertos os dias de
Bertran de Born
Viva o
Vinho
no sol
e (gordura) nas lâminas...
...e (tb) , à penumbra de Autafort,
Bernat del Ventadorn
"Non es meravelha s'eu chan
Melhs de nul autre chantador,
Que plus me tra.l cors vas amor
E melhs sui faihz a so coman.
Cor e cors e saber e sen
E fors' e poder i ai mes.
Si.m tira vas amor lo fres
Que vas autra part no.m aten."
Garudas
gritam gritos gulturais
minhas orelhas
Porrada...
domingo, 14 de junho de 2009
somos o mesmo
céu breu
temor de terra
apego ao horizonte
como adágas escalpelando um tecido
vermelho
mesma sepultura de estrelas
o vento as vozes
das
ondas
eterna dança de navalhas estrangeiras
somos o mesmo céu breu
sepultura
de estrelas o vento as
temor de terra apego ao
horizonte como adágas
escalpelando um tecido
vermelho mesma
vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras*
vermelho mesma sepultura
de estrelas o vento as
vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras*
somos o mesmo céu breu
temor de terra apego ao
horizonte como adágas
escalpelando um tecido
vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras
escalpelando um tecido
vermelho mesma sepultura
de estrelas o vento as
somos o mesmo céu breu
temor de terra apego ao
horizonte como adágas
quinta-feira, 11 de junho de 2009
XXXI
"Maurício,"
não é que toda pressa seja inimiga
da perfeição, pontiaguda de arrepio,
mas dessa atrapalha o fluído
rente a uma certa forma japonesa
de deixar brotar do solo mesmo
o que em outra cama seria insípido.
Musashi, creio, contra o balbucio
eterno da palavra (mesmo essa
vizinha ao puro vento) soube deixar-se
alerta lavrando com paciência
só o solo aplainado do espírito
que tem do peito casas, ruas, portaria.
Será mesmo o árduo exagero
do fazer sem fazer muito,
taoísta cabraliano, de fato
o derradeiro plano do fazer
que se faz mais no contido do
não querer que no enlace com o enevoado?
O que sabe-se, meu velho amigo,
é que os pés estão um atrás do outro,
tempestade se faz mesmo quando tropical,
não só a histeria de um vendaval mas*
essas gotas enormes que caem do contido
poema de nuvens quase negras - paciência torrencial.
* A chuva no Japão carrega os dois extremos da ventania e dos pingos fininhos. Não é como aqui, carregada de água. Seguindo o exemplo do Cordel, a gente tem é que fazer cair água!
segunda-feira, 1 de junho de 2009
XXXII
Vida -
pele INTERminável de
tudo
goza e nua
externaInterminá
véu tão óbvio
(só não visto nos olhos dos bobos)
seiva-sêmen
em veias
de tudo
Vida -
pele INTERminável de
tudo
O que cala a boca suja do Buda,
e joga as mortalhas
às malhas molhadas do tálamo
não há
o que não
grão
não há
nada que não deseja
desejo é nirvana
vagas de eivas
vazio
de relutância
do cio
certeza de eterna idade
o círculo
claro lúrido
úivo da carne
e da raiz
o círculo
Pele interminável
quarta-feira, 27 de maio de 2009
XXXIII
("Il n'y pas de rapport sexuel chez l'être parlant" - Jacques "Locão")
As horas... (que deveriam tornar-se.
anos ou eternidade)
são pele úmida
e hálito.
Um sol.
lábios
cílios
Dissolvidos
nessa espuma que é o corpo
quando dessa experiência
consegue ter o talento
de ainda sair sempre viv
o
utrovivo
utrovivo
utroviv
outr
ov
iv
o
Dhamma
XXXIV
This is Just to Say
I have eaten
the plums
that were in
the icebox
and which
you were probably
saving
for breakfast
Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
William Carlos Williams
Isso é só pra dizer
Comi
as ameixas
que tavam
na geladeira
E que você
deve ter salvo
pra comer
de manhã
Foi mal,
estavam tão boas
doces,
tão geladas
(tradução Marcos Tamamati)
Williams é limpo, parece um laguinho em cuja água estão boiando os signos. Tivemos a pachorra de musicar esse poema para voz, violão, baixo e guitarra com arco de violoncello – sem percussão, Williams é polido demais!
quarta-feira, 13 de maio de 2009
XXXV
Não adivinho-te
Não tem janelas o teu
olhar Entro
-lhe pelos joelhos por isso
A nuca
úmida
repleta de língua
Faço escada dos teus quadris
Pra alcançar
a paisagem de ti
Não estou preparado para o espírito
sábado, 11 de abril de 2009
XXXV - Canção de Carne
Não adivinho-te
Não tem janelas o teu
olhar Entro
-lhe pelos joelhos por isso
A orelha úmida repleta de língua
Faço escada dos teus quadris
Para alcançar a paisagem de ti
Não estou preparado para o espírito
