sexta-feira, 22 de maio de 2026

 

 "What thou lovest well remains, 

the rest is dross
What thou lov'st well shall not be reft from thee
What thou lov'st well is thy true heritage"

(e. pound)

 

ah paixão, incurável, não de agora, pela margem. invisível para os tolos. invisível para os otários. invisível para os canalhas (& que assim seja). algo de verdadeiro num mundo de ilusão e sombras, onde o que mais vale não tem valor nenhum: o tesouro mais profundo: a vitória entre as vitórias: amor entre os amores.

 

 

 

(rascunho) 1
dois dias, depois ainda mesma tarde quente, três, em araxá. ainda é costume que prédios, eles explodam, de pessoas, esparramadas pelas calçadas, ruas abarrotadas de pernas. ainda não se sabe pra que tanta perna, já têm menos cores, dizeres e lenços, memórias de casa e brisas. “berlô e seda esse bosque”. feriado, árvores pequenas uma ária soa seu silêncio entre as folhas, campo aberto ar as cem velas enfunadas de um sorriso uma menina descalça passeia com o cachorro
ir à lotérica. quatro papéis o bolso esquerdo. perna do óculos um pouco torta. chaves na parede da sala. o que parece dizer os rabiscos no pulso direito. já ouviram dizer q ulisses sempre volta. criar um intervalo aqui. uma quebra de ritmo. lado direito. 90 km. não estacionar na vaga para idosos
formas de nuvem serpente مولانا جلال الدین محمد رومی
como se rastejasse dançando rumo aos raios de sol se espalha seus ssihhhh
ondas vibrando o espaço
tempo rasgado, densidade, na caixa, algum hash, de boa e regado; dervixes de bolso, bolar uns estalos de luz na língua umas bolas
“não dizer nada daqui, melhor longe de multidão”; “é palha o que vem desenrolando? metendo o loco em quem? uma pira, só”, e bramir, e bruma
luas em janeiro descem debaixo de 40 graus, ficam dissolvidas no lago de balanço soprados salmos escorrem entre folhas e areia e areia detritos mínimos de matéria espalhada pelo chão o passeio público congelado de íris mornas sob o relevo/veneno de música às veias expostas 





(“ - não, não irei matá-la até ter ouvido o resto dessa história”
“ - um paradigma sobre a virtude e a falta, o poderio e a ignorância, sobre a prodigalidade e a avareza, a valentia e a covardia ou…”)
ao invés de dizer algo sobre o rio bauru da minha aldeia  


algum deserto nunca lhe deixa -“é de bom grado” - antes dos pés pisarem a soleira “para as calçadas”; “na brisa, uma embalagem de al nassma”     

 

 

(Rascunho 2) 

Dos dizeres
por cima de escombro e cinza
o amor triunfa tranquilo
esvaziando a tarde atirada como um indigente maltrapilho
entre sucursais de igreja comercializando a guerra  esquinas fumaça das pedras do asfalto fumaça de escapamento fumaça das silhuetas de fantasmas atrasados fumaça do formigueiro
fumaça sob o efeito da reverberação do sermão que berra o louco na praça os ltda. e os rrrrr também de chuva
o fim do mundo fumaça e nos prédios vestidos de terno suspensos no ar pelas gravatas que mastigavam nos cafés, fumaça adoração
onde meninas de óculos enormes devoram croissants  e os animais de estimação espiam tomando o sol
da manhã na língua e nos pêlos heitor por fim apanhou as espadas pirralhos dão trabalho quando se apaixonam entrou no carro engatou horizonte na quinta as rodas
gigantes  gigantes
todos os elmos às costas de rocinante música minimalista prédios ruminam os carros da polícia olham
as pessoas lesmas lerdas apressadas apagadas em multidões atravessam, são uma sombra a faixa de pedestres entre trincheiras
r. e s. estão entre trincheiras estão em serres, a. encomendou seu bunker no magazine luiza, l. lustra seus coturnos empunhando a baioneta em frente à caixa econômica, traz consigo seus dragões na garganta, ao meio dia faz mesuras aos mil braços de apolo
sim, ela esmaga rouxinóis na axila outros pássaros explodem e escorrem de seu lábio onde céu aberto asas-delta plainam dentes-de-leões e brasa ar rio um demônio ela onde deixa arder entre as pernas santuário
descendo do metrô da são joaquim fumaça assoprando réstias de luz italianadas disseram alhures voltamos ao mesmo novembro se tentar abandonar toda lembrança em páginas de diário
em porões que talvez os ratos gostem de ler

Londrina a gosto de 2007

 

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Autorretrato
 

“Here lies one whose name
was writ in water”
Inscrição no túmulo de John Keats em Roma

 

O Sr. Marcos Tamamati
Praticamente invisível
Razoavelmente bem graduado
Em impopularidade
Especialista em sombra
Com  alguma prática de silêncio
Educado sob a tutela de Akelá com os demais lobos
No deserto caçou orgulhoso búfalos selvagens
Além disso nada fez tropeçando mudo na penumbra
Observador dos planemos solitários
Incólume passou pelo mundo pelo escanteio
Entre duna e rochedos sonoros um tolo
Desastrado enamorou-se dos percevejos
Fora almejado no crânio por setas
Seu corpo ainda afunda perdido
Em alguma parte escura de um lago qualquer

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originalmente publicado em: https://poisnao.tumblr.com/page/10