quarta-feira, 25 de novembro de 2009

XXIV - A fronte precipitium, a tergo lupi

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Tathagata reuniu a assembléia dos monges no Pico do Abutre. Após sair do estado de jhana em que o abençoado permanece a maior parte do tempo, pediu para que refletissem sobre uma pequenina pulga:

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche

Ma Tsu, após receber o golpe do bastão do mestres, exclamou num soluço:

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.

O instrutor do Imperador costumava ruminar na ala de repouso do palácio a tradição de Han Shan:

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.

Dôgen morreu muito jovem para um mestre zen, aos 56 anos, provavelmente em decorrência de
uma tuberculose. Koun Ejo se debateu muito sobre o enigma de seu epitáfio:

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.

Ouviamos dizer que Harada Daimon só não completara o seguinte koan, "insignificante", diziam os seniors:

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

XXV - Ser invisível

Ser invisível

ao tato e ao paladar do outro. E não por vontade própria (a lápide de Keats).
Dossel de criaturas insonoras. Dão as mãos entre escadarias brancas e curvam os pescoços.

Nossos calcanhares de ectoplasma estralam tanto! Mas correnteza encobre tudo, carregando as mortalhas sem endereço, cheias de soluções e rotina.

Nós, nós não somos surdos.
O marulho inconsútil:

pedras pedras
pedras pedras
pedras pedras

As gargantas ateiam fogo e brasa.

Ó! aquele cuja pele foi tornada oceano (no bori tari taya tathagyata)
Tentei pisar-lhe os pés. Havia uma poça clara, afundou-me até o pescoço.

Cá estão, sob o nevoeiro... o braço de Aquiles, o ventre de Medéia, as praias de Bizâncio...

São cristais os ossos. Um pátio de sono abaixo, dia a dia.

sábado, 8 de agosto de 2009

VIII



- A namorada da Maria gosta

de Lacan


- Amiina são as minas que tocam cordas
no Sigur-Rós

Os versos foram cortados errados. Tendo em vista que a idéia geral é simplesmente apresentar a sonoridade da fala, a métrica espontânea da linguagem falada, os versos deveriam estar dispostos assim:

- A namorada da Maria gosta de Lacan


- Amiina são as minas que tocam cordas no Sigur-Rós

terça-feira, 21 de julho de 2009

VIII

Melogopaico




Fernando
:


- A namorada da Maria gosta
de Lacan


- Amiina são as minas que tocam cordas
no Sigur-Rós*




*Tráfico da pintora:


A pintora


Vaga notívaga


Com dores de cabeça

Pois do sol




Inveja






XXVI

Tudo o que somos é resultado do que queremos com Dukkha*



*What is a Buddha?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

XXVII

No décimo quarto dokusan* o sensei perguntou:
- Quem você é?
Ao que ele respondeu dizendo seu primeiro nome.
No décimo oitavo dokusan o sensei perguntou:
- O que você tem pra mostrar agora?
Ele mostrou uma bola de meia.
O sensei lhe deu porrada com um pedaço de madeira.

Num outro sesshin, num mosteiro sem luz elétrica, no escuro com uma laparina, outro sensei lhe perguntou:
- Quem é você que tá aí?
Ao que ele repondeu dizendo seu primeiro nome.
De manhã o sino de aviso para o primeiro zazen se quebrou, nas mãos de alguém querendo acordar todos, 30 minutos antes do horário previsto.

Dizem que quando um praticante mediano aparece, o mestre o recebe e mostra a vassoura e a sala de meditação. Quando um bom praticante aparece o mestre faz questão de fechar todos os portões do templo e tirar o dia todo para dormir.


*encontro formal com o professor da prática, dizem que o mestre aqui representa toda a linhagem até o Buda.

terça-feira, 23 de junho de 2009

XXVIII

Wabi e Sabi


Wabi e Sabi:

este blog(i)


rs

XXIX - Eu-poeta




o rei menos o reino





aquele que tudo toca


já sendo


preso nele mesmo


coberto de tal mantra de poemas


zzzzu(unindo
)

o o



0






eco




eco




eco





eco






eco







eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco






eco





eco






eco






eco






eco






eco






eco









quinta-feira, 18 de junho de 2009

XXX

Solário



O peso d´águ

a

cabando com o tempo e

o corpo deitado

flutua no diáfano.


- Eu estou indo agora (a dez mil pés de civilidade).

- Vocêu? (cada

pétala

pesa tonelada)

- Como?


Troncos de palmeira

e pernas depiladas,

pássaros e as adolescentes

dobrando gazes nas coxas.


- Você não deveria estar aqui, deveria estar mascando Lucacks no alto de um Shopping Center.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Após o primeiro atentado ocorrido e a Guerra declarada.
Porrada...

Abertos os dias de
Bertran de Born
Viva o
Vinho
no sol
e (gordura) nas lâminas...


...e (tb) , à penumbra de Autafort,

Bernat del Ventadorn

"Non es meravelha s'eu chan
Melhs de nul autre chantador,
Que plus me tra.l cors vas amor
E melhs sui faihz a so coman.
Cor e cors e saber e sen
E fors' e poder i ai mes.
Si.m tira vas amor lo fres
Que vas autra part no.m aten."


Garudas
gritam gritos gulturais

minhas orelhas

Porrada...


domingo, 14 de junho de 2009



somos o mesmo


céu breu


temor de terra
apego ao horizonte

como adágas escalpelando um tecido


vermelho



mesma sepultura de estrelas
o vento as vozes
das
ondas
eterna dança de navalhas estrangeiras


somos o mesmo céu breu

sepultura
de estrelas o vento as
temor de terra apego ao
horizonte como adágas
escalpelando um tecido
vermelho mesma

vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras*


vermelho mesma sepultura
de estrelas o vento as
vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras*

somos o mesmo céu breu
temor de terra apego ao
horizonte como adágas
escalpelando um tecido




vozes das ondas eterna
dança de navalhas
estrangeiras

escalpelando um tecido
vermelho mesma sepultura
de estrelas o vento as

somos o mesmo céu breu
temor de terra apego ao
horizonte como adágas



quinta-feira, 11 de junho de 2009

XXXI


"Maurício,"



não é que toda pressa seja inimiga

da perfeição, pontiaguda de arrepio,

mas dessa atrapalha o fluído

rente a uma certa forma japonesa

de deixar brotar do solo mesmo

o que em outra cama seria insípido.


Musashi, creio, contra o balbucio

eterno da palavra (mesmo essa

vizinha ao puro vento) soube deixar-se

alerta lavrando com paciência

só o solo aplainado do espírito

que tem do peito casas, ruas, portaria.


Será mesmo o árduo exagero

do fazer sem fazer muito,

taoísta cabraliano, de fato

o derradeiro plano do fazer

que se faz mais no contido do

não querer que no enlace com o enevoado?


O que sabe-se, meu velho amigo,

é que os pés estão um atrás do outro,

tempestade se faz mesmo quando tropical,

não só a histeria de um vendaval mas*

essas gotas enormes que caem do contido

poema de nuvens quase negras - paciência torrencial.



* A chuva no Japão carrega os dois extremos da ventania e dos pingos fininhos. Não é como aqui, carregada de água. Seguindo o exemplo do Cordel, a gente tem é que fazer cair água!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

XXXII

Gobbledigook (ou canção-gratidão pela sintonia)



Vida -

pele INTERminável de



tudo



goza e nua




externaInterminá

véu tão óbvio
(só não visto nos olhos dos bobos)


seiva-sêmen
em veias

de tudo




Vida -

pele INTERminável de



tudo

O que cala a boca suja do Buda,
e joga as mortalhas
às malhas molhadas do tálamo


não há
o que não
grão

não há
nada que não deseja

desejo é nirvana
vagas de eivas
vazio
de relutância
do cio
certeza de eterna idade
o círculo
claro lúrido
úivo da carne
e da raiz

o círculo


Pele interminável






quarta-feira, 27 de maio de 2009

XXXIII

<Le Bateau Sexuel>

("Il n'y pas de rapport sexuel chez l'être parlant" - Jacques "Locão")


As horas... (que deveriam tornar-se.
anos ou eternidade)
são pele úmida
e hálito.


Um sol.

lábios
cílios

Dissolvidos

nessa espuma que é o corpo
quando dessa experiência
consegue ter o talento
de ainda sair sempre viv

o

utrovivo
utrovivo
utroviv
outr
ov
iv
o

Dhamma




XXXIV

This is Just to Say




I have eaten

the plums

that were in

the icebox


and which

you were probably

saving

for breakfast


Forgive me

they were delicious

so sweet

and so cold

William Carlos Williams



Isso é só pra dizer


Comi

as ameixas

que tavam

na geladeira


E que você

deve ter salvo

pra comer

de manhã


Foi mal,

estavam tão boas

doces,

tão geladas


(tradução Marcos Tamamati)


Williams é limpo, parece um laguinho em cuja água estão boiando os signos. Tivemos a pachorra de musicar esse poema para voz, violão, baixo e guitarra com arco de violoncello – sem percussão, Williams é polido demais!